Modelo de Poisson Aplicado às Apostas de Futebol: Calcular Probabilidades de Golos

Caderno aberto com fórmulas matemáticas ao lado de um relvado de futebol visto de cima

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Uma Fórmula do Século XIX que Ainda Prevê Golos no Futebol Moderno

Em 2019, experimentei pela primeira vez aplicar uma fórmula inventada por um matemático francês em 1837 a um jogo do campeonato português. Siméon Denis Poisson nunca viu um jogo de futebol na vida, mas o modelo que desenvolveu para descrever a probabilidade de eventos raros e independentes encaixa no futebol com uma precisão que continua a surpreender-me quase uma década depois.

O raciocínio é direto: os golos num jogo de futebol são eventos relativamente raros, distribuídos ao longo de 90 minutos, e a probabilidade de cada golo não depende – pelo menos na teoria – dos golos anteriores. Estas condições são exatamente o cenário para o qual Poisson desenhou a sua distribuição. E é por isso que, num desporto onde o futebol representa 35% de todo o mercado mundial de apostas desportivas, esta fórmula continua a ser uma das ferramentas mais subestimadas ao dispor de quem aposta com método.

Não é uma bola de cristal. Nenhum modelo é. Mas se quisermos ir além do “acho que o Benfica ganha” e produzir números concretos – probabilidades de resultados exatos, linhas de over/under, handicaps – o Poisson é o ponto de partida mais sólido que conheço. E o melhor: não exige software caro nem conhecimentos de programação. Uma folha de cálculo e meia hora de trabalho bastam.

A Fórmula de Poisson: Variáveis, Cálculo e Interpretação

Há quem fuja de fórmulas, e compreendo. Mas esta merece a atenção de qualquer apostador sério, porque transforma informação pública – médias de golos – em probabilidades que podemos comparar diretamente com as odds das casas de apostas.

A fórmula é esta: P(x) = (e^-λ * λ^x) / x! – onde λ é a média esperada de golos de uma equipa num dado jogo, x é o número de golos cuja probabilidade queremos calcular, e é a constante de Euler (aproximadamente 2,71828), e x! é o fatorial de x.

O que precisamos saber na prática: como calcular o lambda para cada equipa. E aqui entra o trabalho preparatório. O lambda de uma equipa num jogo específico resulta do cruzamento entre a sua força atacante e a fragilidade defensiva do adversário, ajustado pela média da liga.

Os passos são os seguintes. Primeiro, recolhemos a média de golos marcados e sofridos por jogo de cada equipa na temporada – idealmente separando casa e fora. Segundo, calculamos a força atacante de cada equipa dividindo a sua média de golos marcados pela média geral da liga. Terceiro, calculamos a força defensiva dividindo a média de golos sofridos pela média geral da liga. Quarto, para obter o lambda da equipa da casa, multiplicamos a sua força atacante pela força defensiva do visitante e pela média de golos por jogo da liga em casa. Para o visitante, fazemos o inverso.

Com os dois lambdas em mãos, a fórmula de Poisson dá-nos a probabilidade de cada equipa marcar 0, 1, 2, 3, 4 ou mais golos. A partir daí, construímos uma matriz de resultados: a probabilidade de cada resultado exato é simplesmente o produto das probabilidades individuais de golos de cada equipa. Um 2-1 resulta de multiplicar P(casa=2) por P(fora=1).

Exemplo rápido com números fictícios: se o lambda da equipa da casa é 1,6 e o do visitante é 0,9, a probabilidade de a equipa da casa marcar exatamente 1 golo é P(1) = (e^-1,6 * 1,6^1) / 1! = 0,2019 * 1,6 / 1 = 0,3230 – ou seja, 32,3%. A probabilidade de marcar exatamente 0 golos é P(0) = e^-1,6 = 20,2%. E assim sucessivamente para 2, 3, 4 golos.

O que este exercício nos dá não é uma previsão do resultado, mas sim uma distribuição de probabilidades que podemos sobrepor às odds do mercado. Se a nossa matriz indica 28% de probabilidade para um resultado e as odds implicam apenas 20%, temos uma potencial aposta de valor.

Aplicação Prática: Prever o Resultado de um Jogo da Liga Portugal

Vou fazer o exercício completo com dados realistas da Liga Portugal, porque é no campeonato português que a maioria dos leitores deste site concentra as suas apostas – o futebol absorve 71,8% de todas as apostas desportivas feitas em Portugal, e a Liga Portugal sozinha representa 11,4% desse volume.

Suponhamos um jogo entre uma equipa da metade superior da tabela a jogar em casa contra uma equipa da metade inferior. Os dados da temporada indicam o seguinte: a equipa da casa marca em média 1,7 golos por jogo em casa e sofre 0,8. O visitante marca em média 0,9 golos por jogo fora e sofre 1,5. A média geral da liga é de 1,3 golos por jogo para equipas da casa e 1,0 para visitantes.

Calculamos a força atacante da equipa da casa: 1,7 / 1,3 = 1,308. A força defensiva do visitante: 1,5 / 1,3 = 1,154. O lambda da equipa da casa é portanto 1,308 * 1,154 * 1,3 = 1,962. Para o visitante: força atacante = 0,9 / 1,0 = 0,900, força defensiva da casa = 0,8 / 1,0 = 0,800. Lambda do visitante = 0,900 * 0,800 * 1,0 = 0,720.

Com lambdas de 1,962 e 0,720, a fórmula de Poisson dá-nos as seguintes probabilidades para cada equipa marcar x golos:

Equipa da casa: 0 golos = 14,1%, 1 golo = 27,6%, 2 golos = 27,1%, 3 golos = 17,7%, 4+ golos = 13,5%. Visitante: 0 golos = 48,7%, 1 golo = 35,1%, 2 golos = 12,6%, 3+ golos = 3,6%.

Construindo a matriz de resultados, obtemos: 0-0 = 6,9%, 1-0 = 13,4%, 2-0 = 13,2%, 2-1 = 9,5%, 1-1 = 9,7%, 3-0 = 8,6%. Somando todas as combinações: vitória da casa = 68,4%, empate = 17,4%, vitória do visitante = 14,2%.

Agora o passo decisivo: comparamos estas probabilidades com as odds oferecidas pelo mercado. Se a casa de apostas oferece 1,40 para a vitória da casa, a probabilidade implícita é de 71,4%, e o Poisson indica 68,4% – ligeiramente abaixo, o que sugere ausência de valor nessa seleção. Mas se as odds do empate a 5,50 implicam 18,2% e o modelo indica 17,4%, também não há edge ali. Onde encontro valor com frequência é nos mercados de golos: se o over 2,5 paga 1,85 mas o modelo aponta para 52,3% de probabilidade contra os 54,1% implícitos, a margem não existe.

O exercício não termina com um jogo. O poder do Poisson está na repetição sistemática: aplicar a mesma metodologia a dezenas de jogos por jornada e filtrar apenas aqueles onde existe discrepância significativa entre a probabilidade do modelo e a probabilidade implícita nas odds.

Limitações do Modelo de Poisson nas Apostas

Seria desonesto da minha parte apresentar o Poisson como uma solução completa. Depois de anos a utilizá-lo, conheço os seus pontos cegos tão bem como as suas forças, e qualquer apostador que o adote sem entender as limitações vai acabar a confiar demais nos números.

A primeira limitação é a mais óbvia: o modelo assume que os golos são eventos independentes. Na realidade, um golo aos 20 minutos altera radicalmente a dinâmica tática do jogo – a equipa que está a perder arrisca mais, a que lidera recua. O Poisson não captura este efeito. É por isso que funciona melhor para apostas pré-jogo do que para apostas ao vivo.

A segunda limitação é que o modelo depende inteiramente da qualidade dos dados que lhe fornecemos. Se usarmos médias de toda a temporada sem ajustar para lesões, suspensões ou alterações de treinador, o lambda resultante pode estar desatualizado. O Sportradar identificou 618 jogos suspeitos de manipulação no futebol em 2025, uma redução face aos 730 do ano anterior – o que mostra que até os dados históricos de algumas ligas podem estar contaminados por resultados que não refletem o desempenho real das equipas.

A terceira limitação é a insensibilidade a contextos específicos: derbies, jogos de final de temporada com motivações assimétricas, condições meteorológicas extremas. O Poisson trata um jogo da 1.ª jornada e um jogo de relegação da mesma forma – e qualquer pessoa que veja futebol sabe que não são a mesma coisa.

A quarta, e talvez a mais importante para apostadores avançados: o Poisson não lida bem com equipas de perfil extremo. Equipas ultra-defensivas que empatam muitos jogos 0-0, ou equipas que marcam em rajadas, desviam-se da distribuição teórica. Para estes casos, modelos mais sofisticados como a distribuição binomial negativa ou modelos bivariados que consideram a correlação entre golos das duas equipas podem ser mais adequados.

Dito isto, para a grande maioria dos jogos de ligas regulares europeias, o Poisson oferece uma aproximação surpreendentemente boa. Uso-o como primeiro filtro – nunca como decisão final. A decisão final envolve cruzar o resultado do modelo com a análise de value betting, a leitura qualitativa do jogo e a gestão de banca que protege o capital quando o modelo falha.

O modelo de Poisson funciona para todos os campeonatos de futebol?

Funciona melhor em ligas com amostras grandes e resultados mais previsíveis, como as principais ligas europeias. Em ligas com menos jogos por temporada ou com maior variabilidade de qualidade entre equipas, a precisão diminui. A Liga Portugal, com 18 equipas e 34 jornadas, oferece uma amostra razoável para aplicar o modelo com resultados consistentes.

Que dados são necessários para aplicar o modelo de Poisson a um jogo?

O mínimo é a média de golos marcados e sofridos por jogo de cada equipa, separando jogos em casa e fora, e a média geral da liga. Quanto mais granulares os dados – últimos 10 jogos em vez de toda a temporada, por exemplo – mais ajustado será o lambda. Bases de dados gratuitas como FBref fornecem estas estatísticas para as principais ligas.